Em meio à enorme
controvérsia em torno do tema “leishmaniose”, e considerando a
necessidade de definirmos um posicionamento próprio, o grupo SOS Bichos
tem procurado obter o máximo possível de informações sobre o assunto. O
levantamento de publicações sobre a doença, a participação em cursos e
palestras, a interlocução com veterinários, bem como a troca de
experiências com proprietários de cães infectados são atitudes que
possibilitam a construção de opiniões embasadas e a conseqüente adoção
de uma postura consciente e responsável perante sociedade e animais.
No momento em que o Homem começa a reconhecer o impacto de suas ações
sobre o planeta, tendo em vista a exaustão dos recursos naturais, os
desequilíbrios provocados pelo aquecimento global, a diminuição da
qualidade de vida em função do aumento das populações, etc., vemos como
fundamental para a preservação do meio em que vivemos uma mudança de
paradigma quanto à visão de sobrevivência e bem-estar do ser humano, não
sendo mais possível desconsiderar os demais seres vivos que com ele
coexistem. Afinal, de forma mais ou menos perceptível, tudo e todos
encontram-se relacionados neste planeta. É com essa visão que procuramos
abordar os conflitos entre homens e animais, considerando a questão sob
um ângulo que abrange as necessidades de ambos.
O surgimento da leishmaniose em nosso meio é um bom exemplo dessa
correlação entre os seres vivos. Inicialmente o vetor, mosquito
hematófago do gênero Lutzomia, localizava-se principalmente em matas,
sendo apenas os animais silvestres infectados através da inoculação do
parasita pelo mosquito. Com os crescentes desmatamentos provocados pelo
Homem e o decorrente desaparecimento desses animais, o mosquito vetor
migrou para os ambientes urbanos, onde homens e animais passaram a ser
picados e conseqüentemente infectados pelo parasita da leishmania. A
partir desse momento, os órgãos de saúde pública estabeleceram uma
conduta de combate à doença, cujos resultados não se têm mostrado
satisfatórios, embora a população tenha colaborado de forma efetiva e
por longo período.
Nós, do SOS Bichos,
entendemos que a política de saúde pública adotada no Brasil para o
controle da doença traduz-se numa postura extremamente agressiva do
ponto de vista da integridade animal, uma vez que sua principal diretriz
consiste na eliminação dos cães que apresentam reação positiva nos
testes sorológicos. A justificativa para essa medida reside na suposição
de que tais animais seriam “reservatórios” do parasita, traduzindo-se em
um perigo para a saúde pública.
Nossa posição é de
repúdio a essa conduta, não só porque se baseia numa visão
antropocêntrica, parcial e ultrapassada como descrito acima, mas também
porque encontra-se desprovida de amparo científico, além de ser alvo de
inúmeros questionamentos, como exposto a seguir:
1. A orientação do Manual de Vigilância do Ministério da Saúde para os
seres humanos assintomáticos mas com exames sorológicos positivos é não
tratar e não notificar. Essas pessoas são consideradas resistentes à
doença, mas da mesma forma que acontece com os animais, também poderiam
ser denominadas “reservatórios” do parasita. Em vista disso, que direito
temos de abordar o problema de forma tão parcial?
2. O programa de matança seletiva da saúde pública não está ajudando no
controle da doença. O número de casos humanos e animais aumenta ano a
ano, o que demonstra a ineficácia dessa medida;
3. Os testes sorológicos não são confiáveis, pois são bastante
freqüentes os resultados falso-positivos e falso-negativos. O sacrifício
de cães sadios pelo simples motivo de apresentarem reação sorológica
positiva é um crime;
4. É preciso considerar também a possível função que os cães exercem
como verdadeiras barreiras à inoculação do parasita no Homem, tendo em
vista o alto grau de cinofilia do mosquito vetor. A eliminação desses
hospedeiros consiste em mais uma atitude impensada do ser humano,
resultando em ações que podem voltar-se contra o próprio autor;
5. O curso da doença nos cães é bastante variável, dependendo de fatores
nutricionais, de outras infecções e também de características
individuais. Foram relatados casos de evolução rápida, evolução lenta e
até cura clínica espontânea. Diante dessas possibilidades, é mais que
razoável dar uma chance ao animal;
6. A prevenção, o monitoramento e o tratamento da doença nos animais é
possível. Existem vários produtos repelentes do mosquito e também uma
série de medicamentos que podem ser utilizados, sendo freqüentes os
casos de cães soropositivos que têm uma vida normal e longa, além de não
constituírem perigo para os seus proprietários. Em muitos países da
Europa, o tratamento é a opção preferencial seguida pelos proprietários;
7. Inúmeros são os fatores que proporcionam a disseminação da doença em
determinada área, havendo uma relação inequívoca com o estágio de
desenvolvimento econômico da região. Dessa forma, é fundamental a adoção
de medidas tais como a conscientização da população e dos agentes
sanitários sobre os sintomas, a promoção de programas nutricionais e de
saúde, o combate à multiplicação do mosquito vetor (saneamento básico,
limpeza peridomiciliar, etc.), o controle da população de animais
através de programas de castração e de estímulo à posse responsável,
etc. Essas medidas deveriam prevalecer a ações infundadas e ineficazes,
como a matança seletiva adotada pelo poder público.
Diante desses questionamentos, o grupo SOS Bichos propõe uma abordagem
diferente para o problema da leishmaniose, de tal forma que o animal
acometido, em vez de ser considerado vilão, seja encarado como vítima da
mesma, merecendo o acolhimento e o amparo por parte da sociedade, assim
como ocorre com os seres humanos. É preciso livrar esses animais do
estigma criado pelo alarmismo e pela ignorância em torno da doença,
posicionando-se de forma positiva e responsável perante a questão.
Entendemos que essa postura traduz-se em não rejeitar os cães
soropositivos sadios, submetendo-os a exames de controle periódico e,
caso necessário, ao tratamento adequado. Já os proprietários de animais
doentes devem exercer seu direito de tratá-los sem estarem sujeitos a
ameaças e pressões por parte dos órgãos de saúde pública.
Felizmente, a cada
dia, percebemos que proprietários e veterinários estão abraçando essa
causa, assumindo uma posição mais ativa com respeito ao assunto. Um bom
sinal dessa mudança de visão é o fato de testemunharmos, em nosso
trabalho de encaminhamento dos animais, a adoção consciente de cães
soropositivos. Atitudes como essa nos fazem acreditar na capacidade do
ser humano de corresponder de forma digna ao compromisso que temos
perante a vida em nosso planeta.